sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dois dias

Ontem não te contei nada...estava tão cansada do centro da cidade, do calor intenso e húmido e da enorme constipação que não me deixavam respirar...
Mas hoje, cá estou! E com dois dias, daqueles grandes, para contar :)
O dia de ontem começou com um passeio forçado pela rua central de Kwoloon em busca de uma espécie de farmácia mas, como ao contrário do que eu esperava, o comércio só abre às 10h, lá tive que me entreter a passear pelo "jardim" de Kwoloon. Não é bem feio mas também não é um jardim; é uma espécie de canteiro grande entre arranha-céus. Enfim, foi o que conseguiram fazer na selva urbana e, acredita, há "jardins" com muito menos árvores ou mesmo ervas aqui por esta banda.

Depois de um café nesse lugar de culto que é o Starbucks (sim, de culto do café espresso ainda que não chegue aos calcanhares de uma boa bica Portuguesa) segui para o Mercado de Jade. Eu não sabia (mas talvez porque nunca tinha sequer prestado atenção a isso) que existe Jade que não é verde! Fiquei a saber que se pode ter apenas um pedacinho pequenino de Jade e a juventude eterna está garantida.
Depois do mercado e de cruzar uma imensa rua apenas de "joalherias" entrei numa avenida completamente diferente - a das lojas dos grandes criadores (LV, Channel, entre outros) e de grandes centros comerciais - achava eu que era uma avenida "muito" diferente; enganei-me; há muitas assim em HK...mas acho que em mais lugar nenhum do mundo existe esta fachada de LV!






Como boa turista que sou, apanhei o mítico Star Ferry para HK island e...bem, a partir daqui as imagens valem mais que tudo o que te possa dizer.



Cansada do calor sufocante da cidade de contrastes, apanhei o autocarro #260 para Stanley, uma baía com praia no lado Sul da ilha e, mais uma vez, não tenho palavras que cheguem para descrever e, portanto cá ficam as fotos de um lugar que ainda é um paraíso. Digo "ainda é" porque as obras na "marginal" adivinham um tremendo investimento no turismo e o grande centro comercial já relembra que estamos apenas a 30 minutos da cidade de ferro e vidro...se quiseres conhecer esta pequena vila, tens que vir depressa.
















Ainda com o calor abafado, o nariz a pingar e a enorme vontade de ver (e de te mostrar) mais de Hong Kong, meti-me no autocarro 6X de volta ao centro financeiro do mundo (oriental). Depois de quase uma hora de viagem e de uma escalada difícil das ruas de HK, em passo apressado de chinês até apanhar o Peak Tram (um Sr. simpático guiou-me porque as indicações aqui são muito más), meti-me na fila de turistas de todas as nacionalidades. O Peak Tram leva-nos por uma montanha com 26º de inclinação - é um bocadinho duro para as costas nos bancos de madeira de 1920 mas vale a pena. Ora diz lá que não é lindo e igualzinho aos postais!
E jantei aqui, com esta vista, ao som de música americana dos 70 e 60 num restaurante inspirado no Forrest Gump. Sim, o filme! E tinha lá uma frase bastante real, nada cinematográfica - you may be an idiot but you're not stupid! E pronto, lá tive que me rir, sentada sozinha numa mesa, fazendo justiça à bendita frase :)
Depois do jantar voltei ao nível do mar, voltei ao Ferry, voltei a Kwoloon e mais uma vez (hoje estou a repetir-me bastante) o meu dicionário não chega para estas vistas:

Não, não digitalizei postais! É mesmo assim, sem montagens, sem truques de filtros e lentes - é só muito mais bonito de noite porque ilumina o que é bom e não se vê a desgraça. Sim, também tem e algumas eu até fotografei mas não me apetece mostrar aqui. Tem gente pobre sentada no chão e a pedir nas esquinas do centro financeiro, tem casas decrépitas paredes meias com prédios de porteiro de luvas, tem mercados quase "sinistros" entre os prédios de centros comerciais mas longe dos bancos HSBC e Bank of China. Enfim, HK também é igual ao resto do mundo...
Mas aqui, o que mais me impressiona, é a falta de educação das pessoas que, suponho, está relacionada com a falta de espaço. Como diz o Gonçalo Cadilhe, e muito bem, no Oriente a "intimidade não existe" - aquele espaço próprio que temos no Ocidente, o nosso metro quadrado, aqui reduz-se brutalmente. Talvez por isso não se respeitem filas até que os olhe com fúria (sim, mesmo os de 700 anos têm que ir para trás de mim e, então sim, até lhes posso dar passagem!), não se dá o lugar a alguém idoso (só eu me levantei para isso!), não se pede desculpa com um brutal encontrão, não se espera que saiam das carruagens ou do elevador antes de se entrar...
Se ontem me sentia mal e tudo isto me irritava ainda mais, hoje, se bem me conheces, tudo me passou com a Magia da Disneyland, e logo no Metro! Não há nada que um bom Pateta não cure! Aqui ficam as fotos porque também não há palavras...
E por hoje já chega - vou dormir!
Beijinhos,
Até amanhã
PS1 - Obrigada por me explicares a "que afinal não é uma cruz suástica"!
PS2 - Continua a ver a viagem do colar!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Lantau, Hong Kong


Já com o horário acertado, abri a janela do quarto e disse bom dia a Hong Kong (HK). A paisagem não é tão bonita como a que te mostrei ontem, da mesma janela, do mesmo quarto – será por isto que os postais de HK são nocturnos?!



Guia, Máquina, Diário de Bordo e dois possíveis destinos…optei pelo Buddha Gigante. Ontem já o tinha visto do avião, fiquei curiosa e tive que ir ver melhor de que tamanho era este gigante. Comprei um Octopus Card (uma espécie de passe recarregável) e apanhei o metro para Tung Chung, em Lantau.




Embora nos transportes públicos de HK não se pode comer, beber ou fumar, bem como nas respectivas estações, há sempre um mini centro comercial dentro de cada uma delas que vende comidas e bebidas que se podem transportar para a carruagem – um constante braço de ferro entre o apelo do estômago e a multa!

Cerca de 30 minutos depois cheguei a Tung Chung e, para meu grande desgosto, o teleférico não estava a funcionar. Tive então que entrar no bus 23 com destino a Ngong Ping mas, como há males que vêm por bem, assim consegui viajar por toda a ilha por apenas 30$HK (cerca de 3 euros).


Lantau é a maior das ilhas de HK e onde se situam o Aeroporto, a Disneyland e algumas das melhores praias e caminhos pedestres, mas há apenas uma estrada, estreita, de curvas e contracurvas, e em obras! Por isso, e ao fim de uma viagem de praticamente uma hora, em tudo semelhante à que nos leva até ao Curral da Freiras na ilha da Madeira, cheguei ao Mosteiro de Po Lin e UAU…é MESMO Gigante.





É uma enorme estátua de bronze, com 34m de 250 toneladas, sentada sobre flores de lótus, no cume de 264 degraus, que todos parecem contar enquanto descem – para cima é mesmo impossível! Apesar de o meu Rough Guide indicar que a visita era grátis, custou-me 23$HK que foram depois convertidos num gelado (Corneto Cappucino) e numa água destilada (sim, aqui bebe-se água destilada e em quantidades pouco usuais – 770ml, 880ml), o que deve resultar numa pequena margem de lucro. Ainda assim, vale a pena pela serena imponência desta figura e das que o rodeiam e da paisagem vista de lá – os vários templos coloridos de Po Lin encaixados no verde das enormes montanhas.


Po Lin pareceu-me ser um enorme restaurante vegetariano, cheio de miúdos e graúdos em passeios organizados, rodeado por outros pavilhões com figuras de Buddha e onde a entrada de bebidas alcoólicas e comida não vegetariana não é permitida. Ao pé de cada figura havia fruta fresca, flores e incenso, quando este era permitido, Está em obras e, quero pensar que seja por isso, não tinha atmosfera…



Com Tai O, a maior e mais antiga aldeia de Lantau, como destino, entrei no bus #21 e 10 minutos depois estava à beira de um mangal a observar os caranguejos no seu quotidiano – sempre a olhar de lado os vizinhos e a assegurar que não entram em suas casas.






Quando se chega ao parque de estacionamento, não se adivinha o interior de Tai O, nem mesmo depois de se ler o guia ou se ver uma ou outra foto. Tai O é daqueles sítios. É uma aldeia de pescadores nascida nos tempos em que cada família tinha o seu barco e conseguia o seu sustento. É pouco colorida, sobre estacas (como a nossa Carrasqueira do Sado), com apenas duas ruas paralelas ao braço de mar que a atravessa e um sem número de ruelas perpendiculares. Tem tabernas em que se jogam cartadas, tem roupa rota estendida ao sol e ao lado do peixe que seca nas redes, tem cães vadios, tem casas de portas abertas para a rua para se ver quem passa e tem turistas que caminham em direcção aos templos – uns olham, outros, vê-se, preferiam que não se visse nada disto. Continuo pela rua até ao templo Hau Wong Miu, no extremo da aldeia, à beirinha do mar. Que paz! Que vista! Vai uma foto! Depois outra…ainda mais outra. Descanso ao pé do lago e volto para o centro, ao mercado.
















O mercado de peixes e mariscos é numa dessas ruas paralelas – tem todos os mariscos secos (camarão, amêijoa, mexilhão, e outras coisas que não consigo identificar) e apenas alguns frescos, vivos mesmo, para o cliente escolher e sacrificar depois. Não compro nada porque não gosto de peixes secos nem de nada muito salgado e sigo para outro mercado, o de tudo o resto e que fica na outra rua paralela. Visito o centro comunitário de desenvolvimento cultural e ecológico para a sustentabilidade que não tem apoio do governo – parece que seja qual for a orientação do mundo, deste ou de outro lado, essa instituição tem os mesmos princípios…




Deixo Tai O a meio da tarde para conseguir ainda ver Mui Wo antes de escurecer, o que aqui acontece por volta das 18h. Depois de mais meia hora pela já famosa estrada única, chego ao terminal dos autocarros e ferries que apenas impressiona pelo parque de bicicletas.

Mui Wo não tem muito que ver à excepção do mercado de comida cozinhada (um aglomerado de restaurantes e bares de praia) e da praia de Silvermine – uma baía de areia branca, onde estão miúdos a fazer canoagem e alguns pescadores a apanhar amêijoas com água pelo pescoço e sem poder usar qualquer aparelho…calma, eles estavam de joelhos na água e é mesmo com a mão que escavam até as apanhar e colocar no cesto de rede submerso. Pois…nestas águas não se pode praticar pesca destrutiva, o que, segundo o ministério do ambiente e alimentação, é apenas a que se faz com explosivos, dragas, químicos, aparelhos eléctricos e sucção….



Depois de molhar os pés nesta água quentinha, sentei-me na praia a decidir o que fazer com a noite. Decidi-me pelo Mercado nocturno de Temple Street em Kwoloon, onde se podem comprar roupas, sapatos, peixes, ler o futuro e ouvir um artista local a cantar. Apanhei o bus #M3 de volta a Tung Chung (outra hora), depois o MTR até Tsim Sha Tsui para subir a rua mais comercial cá do Sítio – Nathan Road. Todas as marcas, grandes e pequenas, nacionais e internacionais, devem ter aqui uma loja…e para que nenhuma passe despercebida, o néon que as indicam são Mesmo Muito luminosos e, se preciso for, estão no centro da rua para que nenhum outro os encubra!















O Mercado é…um mercado – talvez o que tenha de mais unusual seja a disposição das bancas. Brinquedos sexuais partilham a bancada com T-shirts souvenir ou de carteiras para miúdos mas, diz o aviso pendurado na banca, “indecent toys cannot be used by kids” – aqui deve ser o que basta.

Time to go to bed,

Jinhos


PS1 – Reparaste que o Buddha tem uma cruz suástica no peito?! Sabes explicar-me porquê?!

PS2 – Reparaste que trago no pulso um certo colar verde para cumprir o prometido num certo jantar?!





terça-feira, 9 de outubro de 2007

Live from Hong Kong








Como deves ter reparado, os post anteriores foram publicados hoje e não nos dias em que deveriam ter sido daí este merecer o fabuloso título "live".








Ora pois que cá estou eu, a escrever às 22h18 de dia 9 de Outubro de 2007, nesta minha primeira noite em Hong Kong, ou seja, do outro lado do mundo.








Até agora está tudo a correr bem, até me entendem e tudo! Muito organizados e, à primeira vista, vou gostar desta cidade de grandes contrastes - gigantes de vidro iluminados como árvores de natal e ao lado um prédio de 7 andares a cair de vellho com janelas partidas mas habitado; ruas e ruas e ruas e mais ruas de bazares chineses, take away e, entre eles, uma ou outra casa de decoração completamente ocidentais e boas pastelarias com todos os pecados do mundo aí desse lado: Scones, tartes, criossants e outras iguarias francesas ou japonesas (algumas que nem vi no Japão...) Isto foi o que consegui ver no caminho até ao hotel mas, como não tinha a máquina preparada, as fotos ficam para amanhã.








Hoje deixo-te apenas a da vista da janela do meu quarto e do meu GIGANTE chuveiro - é quase do tamanho do cubículo onde tomo banho :)









A primeira viagem

Segunda, 8 de Outubro, 12h, Vôo BA 501 com destino a Londres, lugar 19A

Como todas as boas viagens esta começou com uma hora de atraso e…de autocarro! A minha saída do Terminal 1 da Portela, em direcção ao avião que se encontrava a escassos metros de distância, foi de autocarro! Que chic! Penso que seja por uma questão de segurança – não podíamos caminhar junto à parede falsa que nos separava do avião; é muito mais seguro caminhar 5m até ele, bem por baixo das asinhas, suponho…

Mas não termina aqui. Já dentro da aeronave, Sir John, o comandante avisa que temos que esperar pelo menos 20 minutos porque Heathrow está congestionado – Que Chic! Um Comandante que é Sir! O pássaro lá descola mas, ao contrário do que me costuma acontecer, vamos sempre por cima do continente e não do oceano, o que me dá oportunidade para ver o quanto temos investido em energia eólica - não há elevaçãozinha que não tenha uma ventoinha! Fica a pergunta, será que funcionam?!

Chegada a Heathrow, uma hora de atraso e…não havia lugar para estacionar…disse Sir John depois de achar que os passageiros já se estariam a perguntar “o que fazemos nós às voltinhas na pista há mais de 5 minutos?”. Isto de ser Sir deve ter um ou outro benefício e lá alguém se convenceu que tínhamos que encostar em algum sítio – foi mesmo ali, junto aos espaços em obras J

Esta viagem meio atribulada fez-me chegar um bocadinho atrasada ao pé dos amigos do NHM mas ainda assim lá conseguimos ir até ao pub passar uma muito mais que happy hour.

Agora aqui estou, a escrever-te a minha aventura de hoje, mas só a publico amanhã porque, nesta terra, até a ligação net no aeroporto se paga! Vou antes compara um perfume e comer porque estou quase a embarcar.

Amanhã há mais mas até lá deixo-te uma frase do Gonçalo Cadilhe, retirada de um livro que me ofereceu um grande viajante, o que me garantiu que “a lua pode esperar”:

Cada um traz dentro de si um desejo de tocar o limite do mundo.

O meu começa a ser concretizado agora.

Até já, do outro lado do mundo.

PS – Parabéns Marta!

Bizarrices


Sexta, 5 de Outubro, Bairro Alto
Um jantar excelente, companhia excelente. Disposição das mesas bizarra, comida bizarra (é possível rechear sardinhas, caso não saibas, e fazer bacalhau com natas com bróculos e mais nem conto porque nem me lembro), garrafeira bizarra (3 marcas de vinho esgotaram só porque pedimos 2 garrafas). Alegria nada bizarra – Noite a não esquecer, já guardada na caixinha.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A quem levo comigo na caixinha

Desta vez escrevo na vertical do hemisfério Norte mas...

Começou o contar dos dias...6...5...e as despedidas de todos os que vão comigo na caixinha de 4 compartimentos; não são verdadeiras despedidas...é mais um "até logo" (não posso dizer até já devido a um certo operador de telefones móveis). E tem sido tão bom! Calma, vou explicar - não te quero ver longe mas, finalmente, os relógios pararam e arranjámos horas um(a) para o outro/a e eu não me consigo lembrar de nada melhor que isto - tempo com os Amigos. Bendita a volta (ao mundo e ao tempo)! E se no caminho me desiludir, já valeu a pena só porque estive contigo aqueles minutos antes de partir :)

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa

terça-feira, 2 de outubro de 2007